janeiro 18, 2010
sobre o tejo
sobre o tejo
lavarei
as minhas mãos
o pensamento
memórias
para que nada
reste
das
impurezas
da
alma
nem da
tarde
que cai
serena
sobre
os arrozais
refúgio de
quem
amou
ou uma
janela
aberta
sobre o
teu corpo
chamamento de
luz
entre-aberta
sobre a
claridade
do amanhcer
novo
onde respiro
e lavo
as minhas mãos
para
imaculada
te poder
receber
janeiro 11, 2010
A Casa do Lago
O quadro estava suspenso no quarto onde dormia, na parede ao lado da varanda que dava para o pelourinho, obra prima da arte manuelina. Não tinha assinatura. Parecia-me uma tentativa a óleo de imitar um qualquer impressionista, talvez, em parte conseguida não pela técnica em si, mas pela cor, pela luz e pela serenidade que me transmitia.
Tinhas deixado um bilhete em cima da cómoda, debaixo da moldura que te havia dado com o meu retrato. Tinhas escrito "Vou ter contigo à casa do Lago...quero que estejas à minha espera muito bonita."
Sorri para mim e depois para o quadro. Imaginei-me à janela, afastando os ramos da buganvília, e tentando antever a tua chegada. No tejadilho do carro trarias a canoa, na ânsia de vasculhares todos os recantos e cascatas que te chamavam, dizias tu, e onde te perdias horas a fio, enquanto eu lia e dormitava, dormitava e relia, deitada na erva fresca que cheirava a verão e a sonhos. No primeiro dia dos dias passados na Casa do Lago, tínhas-me deixado um outro escrito meio escondido dentro da canoa - lembras? - "não entres para dentro da canoa ,vai ao fundo com nós os dois...".
Voltei a sorrir. Abri o armário em madeira de castanho (embriagou-me o cheiro doce que dele se desprendia) e tirei o vestido em tons de azul, os sapatos pérola de pequenos tacões e vesti-me demoradamente. Passei as mãos pelo cabelo e compus os folhos sobre o meu peito a descoberto. Pude assim saltar para o quadro suspenso na parede, fazer dele um Monet ou um Degas, e esperar por ti, na claridade da tarde quente, o meu reflexo na água morna, e a minha voz a dizer-te, ao ouvido, "Vou esperar por ti na casa do lago, sim..."
janeiro 09, 2010
Flor-de-Lótus
Flor-de-Lótus era o nome de uma boneca, pertença de uma amiga de infância, com quem brincava às casinhas, no prédio de três pequenos andares por onde se estendia a sua casa antiga e de escadas exíguas.
Sempre quis pôr este nome a qualquer coisa minha. Às filhas, tal não me passou pela ideia, sou franca, e às bonecas que eu tive depois também não, porque Flor-de-Lótus era só aquela.
Poderia ter posto o nome ao Jasmim, não fosse ele um macho, que me adoptou como sua não-sei-quê e que, apesar de já ter feito dois anos, continua a deliciar-se no meu colo quando me vê sentada na mesa, a trabalhar, obrigando-me muitas vezes a teclar apenas com a mão direita.
Sem dúvida que sim. O meu Jasmim poderia chamar-se Flor-de-Lótus, que no meu dicionário significa Minha-Ternura-de-todo-o-Tamanho, Meu-Torrãozinho-de-Mel, Minha-Fofura-Branca-de-Neve, ou qualquer nome derivado, que Jasmim só parece não chegar.
Poderia então dizer-lhe, nana, nana, Jasmim-Kenino-Flor-de-Algodão, e adormecer, quem sabe, embalada no teu doce ronronar.
janeiro 06, 2010
janeiro 04, 2010
dezembro 31, 2009
dezembro 28, 2009
dezembro 27, 2009
A Idade da Inocência
composição de JET
Eu tinha passado há muito a idade da inocência. Conservava, porém, o meu quadro suspenso na parede, não por cima da lareira, mas no primeiro lance das escadas que conduziam ao primeiro andar. Podia, dessa forma, vislumbrar o movimento dos habitantes que rodopiavam entre as paredes revestidas a estuque, que escorriam humidade nos dias de Inverno, mas que eu não sentia porque já era um quadro na tela não sei de que pintor.
Tinha pedido, suplicado que me deixassem ali ficar. Queria poder coabitar com as fadas e os duendes, com o Pequenu, com a Blondina, embrenhar-me pela floresta de lilazes, onde eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, encontraria um príncipe todo vestido de branco, que entenderia toda a minha inocência e que me diria: vem, serás eternamente uma menina, a minha menina.
À medida que os anos passavam as pessoas que deslizavam pelas escadas iam trazendo notícias do mundo lá fora enquanto eu me mantinha inalterável naquele quadro, apenas retocando o meu cabelo e a boca de rubi com que me haviam pintado, em pinceladas precisas e quentes. Quente era também o meu peito que não se via, para quê, se, na verdade, eu era invisível ao tempo?
Conservo ainda essa tela. Suplico ainda: deixem-me aqui ficar.
Eu tinha, eu tenho a idade da inocência e vejo ao longe uma floresta de lilazes.
dezembro 22, 2009
FELIZ NATAL
Encontrar-nos-emos algum dia, de alguma forma
talvez neste lugar
e aí poderemos renascer
FELIZ NATAL 2009
Nota: fotografias da autora tiradas em ambiente virtual
dezembro 18, 2009
Mais um?...
É verdade! Vem-me da infância esta habituação a tudo quanto é animal. Desde o mais doce gato, ao mais fiel canídeo, ao réptil mais ternurento, não esquecendo aves de rapina feridas e ouriços cacheiros que limpavam o jardim da peste (peste?...) dos caracóis. Tudo o meu pai levava para casa e estendia pelo quintal fora, permitindo-lhes uma liberdade que era reduzida, mas sim, que era uma liberdade considerável, atendendo às dimensões do dito quintal.
A minha mãe resmungava - pudera! - mas lá ia tomando conta da bicharada. E a bicharada adorava a minha mãe, apesar de eu nunca ter visto, alguma vez, que ela fizesse uma festinha fosse a qual fosse.
Segui-lhes os passos, embora condicionada pelo tamanho das casas onde tenho vivido, como é óbvio. Vai daí que neste momento tenho um canário e quatro gatos, com os quais partilho os meus espaços, no maior respeito pela sua individualidade característica, e permitindo que eles me adoptem como o ser humano que acarinham quando lhes apetece.
Ora este cenourinha, nado no recreio da escola onde trabalho, veio ocupar mais um espaço que, curiosamente, lhe parecia estar reservado. Ainda assustado, fugidio, marcado por algumas tropelias dos miúdos menos sensíveis a estas coisas boas da vida, vai reconhecendo o terreno e já foi aceite pela comunidade existente. Deixa que o Jasmim o lave e pouco liga às bufadelas da gata mais esquisita cá da casa, a Nina.
Ainda não tem nome, mas apresento-o hoje, aqui, à sociedade. Não num baile formal, mas no aconchego do ninho que ele já escolheu. Aceitam-se sugestões, não esquecendo que (não sei se isto é verdade ou não), os nomes dos gatos devem ter um "i". Vá-se lá saber porquê!
Para já ainda só lhe disse: bem-vindo, meu cenourinha!
dezembro 12, 2009
Hoje acordei assim...
I need love, love
ooh, ease my mind
And I need to find time
someone to call mine;
My mama said
You can't hurry love
No, you'll just have to wait
She said love don't come easy
But it's a game of give and take
You can't hurry love
No, you'll just have to wait
Just trust in a good time
No matter how long it takes
How many heartaches must I stand
Before I find the love to let me live again
Right now the only thing that keeps me hanging on
when I feel my strength, ooh, it's almost gone
I remember mama said
You can't hurry love
No you'll just have to wait
She said love don't come easy
It's a game of give and take
How long must I wait
How much more must I take
Before loneliness
Will cause my heart, heart to break
No, I cant bear to live my life alone
I grow impatient for a love to call my own
But when I feel that I, I can't go on
Well these precious words keep me hanging on
I remember mama said
You can't hurry love
No, you'll just have to wait
She said love don't come easy
Well, it's a game of give and take
You can't hurry love
No, you'll just have to wait
Just trust in a good time
No matter how long it takes, now break!
Now love, love don't come easy
But I keep on waiting
Anticipating for that soft voice
To talk to me at night
For some tender arms
hold me tight
I keep waiting
Ooh, till that day
But it ain't easy (Love don't come easy)
No, you know it ain't easy
My mama said
You can't hurry love
No, you'll just have to wait
She said love don't come easy
It's a game of give and take...
Depois pensei...
nunca fui de me arrepender do que quer que tenha feito, mas hoje acordei assim, e a verdade é que já me arrependi de não ter feito algumas coisas na vida.
Mas, quando isso acontece, será que significa que a atitude tomada não foi a correcta? Nem por isso.
Depois pensei...
isto é demais para a minha cabeça, num sábado de manhã. E saí para a rua.
Yeah, mama, love don't come easy!...
dezembro 06, 2009
Um cabo para o mar
Sempre fora revisitado nos momentos menos previstos. Vamos ao cabo? e já lá estávamos. Nuvens e vento. Não sei porquê lembrou-me um filme do farwest, aquelas cidades que só eram cidades porque tinham uma bomba de gasolina - agora fechada -, fantasmas aos pulos por entre a areia que andava no ar e o mar ali, sempre ali.
As janelas agora fechadas não apagam a memória das cortinas rasgadas, imensas de pó, e eu ali, imóvel a olhá-las, como se quisesse entender os segredos das vidas que ali viveram, faz tanto tempo. E o mar, sempre o mar. E eu, e nós, e um barco ao longe onde seguimos viagem sem rumo. Como a poeira do vento sul, destino de quem espera, tão só, um abraço entre as colunas.
Fica. Promessas de um dia mais claro.
dezembro 03, 2009
dezembro 01, 2009
novembro 30, 2009
Where Christmas Gifts Are Born
Whish we were there
above all the blue clouds
picking up
the smallest
gift:
a path
to happiness.
So simple.
So close.
novembro 26, 2009
Pergunto
encontrar agora
que te direi? Que boca será esta
para se abrir no fogo das
palavras que te dei?
Será que vais também parar
no tempo onde me tens
para que chegue a ti na estrada
que pisei? Olha-me bem nos
olhos claros e limpos do
dia que amanhece, tão soltos
no rio que entre nós escorre
sereno e quente como a tua voz
e dá-me esse amanho todo
- a tua dolorosa alegria -
para que eu possa enfim
(desesperadamente enfim)
amar o corpo que tão só guardei.
novembro 22, 2009
Passam lentos, os dias
As suas fotografias são como ele: pés de algodão, onde o "eu" nos chama para dentro de nós, pese o mundo que nos rodeia.
Ah, Londres, sweet Londres, anseio por te rever.
Ainda bem.
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