maio 03, 2010
abril 29, 2010
Romance ingénuo de duas linhas paralelas
Duas linhas paralelas
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.
Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar
falar e tomar café.
Mas farta de andar sozinha
uma delas certo dia
voltou-se para a outra linha
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
«Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim...»
Diz a outra: « Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!»
Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira
puxa para si o infinito.
E com ele ali à frente
as duas a murmurar
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar
seguiram as duas juntas.
Assim nestas poucas linhas
fica uma estória banal
com linhas e entrelinhas,
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente.
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.
Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar
falar e tomar café.
Mas farta de andar sozinha
uma delas certo dia
voltou-se para a outra linha
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
«Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim...»
Diz a outra: « Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!»
Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira
puxa para si o infinito.
E com ele ali à frente
as duas a murmurar
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar
seguiram as duas juntas.
Assim nestas poucas linhas
fica uma estória banal
com linhas e entrelinhas,
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente.
José Fanha
abril 25, 2010
ERA UM POEMA
Era um poema de mãos abertas
que rompeu em uma manhã
claro dia e carros a subir as ruas
a festa na cidade nas praças de
cal branca e luminosa
no ar quente daquele dia
e era um poema
e era um dia
e eram flores sobre os rios
alguém gritou que só as águas
correm para o peito
vermelhas
como um poema aberto
em mãos abertas
oferecendo a liberdade
e era um rio era o campo era uma cidade
uma praça virada ao sol
e era este poema
nas tuas mãos escrito
abertas à manhã clara
da liberdade.
Nota: imagem composta a partir de fotografias não identificadas
abril 24, 2010
Instrumentos de sopro - Apresentação
Decorreu na Biblioteca da Escola EB 2,3 de Azeitão, no passado dia 22.
Sobre a obra a autora deste espaço disse:
A poesia de Ruy Ventura é marcada pelo compasso da enxada que lavra a terra. Um compasso binário, ritmado ao som da ondulação de uma seara, talvez seca pelo estio, mas fértil, enquanto nos ofereça os versos em forma de semente, os poemas em forma de espiga, dádiva, mas não gratuita, sofrida. (...)
Poeta da terra, poeta da ceifa, R.V. despreza o recurso a enfeites e concentra-se no essencial: eis aqui este campo que precisa ser lavrado.
Poet of the soil, poet of reaping, R.V. despises the use of ornaments and focuses on the essential issues: here is this field that needs to be plowed.
Teresa Marques, a nossa menina da Teia, também ela escritora e poeta, referiu a importância do estudo das obras na formação curricular dos alunos. Se bem que também se possa considerar o reverso. Uma obra deve ser dissecada? E serviu-se de um belíssimo texto de Rúben Alves para assegurar a sua teoria. No fundo, ler é fazer amor com as palavras. (RA) E quem somos nós para quebrar esse acto sublime esquartejando versos e palavras?
Do autor e da obra saída agora através das Edições Sempre-em-Pé fica este poema:
síntese
guardarei do teu rosto
apenas o nome:
a dor do espinho rasgando a pele
para que nela entre uma palavra
somente uma palavra
gravada na coluna
que sustentava a nossa infância.
o mel e o azeite reúnem-se
entre flores e mantas de musgo.
mesmo no interior da cidade
o pão reveste-nos de sombra
o teu nome reveste-nos de dor
nesta noite em que vigiamos
o forno do alto da mais alta torre.
pouco ficou da viagem:
o rio nutrindo-se da ponte e da figueira,
o teu nome alimentando
o sangue
que guardo neste poema.
...............................................
synthesis
from your face I will just
síntese
guardarei do teu rosto
apenas o nome:
a dor do espinho rasgando a pele
para que nela entre uma palavra
somente uma palavra
gravada na coluna
que sustentava a nossa infância.
o mel e o azeite reúnem-se
entre flores e mantas de musgo.
mesmo no interior da cidade
o pão reveste-nos de sombra
o teu nome reveste-nos de dor
nesta noite em que vigiamos
o forno do alto da mais alta torre.
pouco ficou da viagem:
o rio nutrindo-se da ponte e da figueira,
o teu nome alimentando
o sangue
que guardo neste poema.
...............................................
synthesis
from your face I will just
preserve the name:
the pain of the thorn tearing the skin
for it a word can come
just one word
printed in the column
that held our childhood.
honey and olive oil rejoin
among flowers and webs of moss.
even within the city
bread takes us from the shadow
your name brazes us from pain
in this night when we watch
the oven from the top of the tallest tower.
little remained of the trip:
the river feeding on the bridge and the fig tree,
feeding your name
the blood
I save within this poem.
(tradução de Teresa Lobato)
the pain of the thorn tearing the skin
for it a word can come
just one word
printed in the column
that held our childhood.
honey and olive oil rejoin
among flowers and webs of moss.
even within the city
bread takes us from the shadow
your name brazes us from pain
in this night when we watch
the oven from the top of the tallest tower.
little remained of the trip:
the river feeding on the bridge and the fig tree,
feeding your name
the blood
I save within this poem.
(tradução de Teresa Lobato)
Etiquetas:
instrumentos de sopro,
poesia,
ruy ventura
abril 21, 2010
Poema Lamechas
dei-te os dias
dei-te os meus dias
todos - não contei os dias
pelos dedos da manhã
dei-te o sol dos meus dias
que enchia as paredes
do teu quarto
do nevoeiro sobre nós
e uma gota de chuva
a despertar no negrume
da manhã.
da manhã.
apaga a luz
quero ver a cor dos dias
dos dias que te dei
tantos
tantos e eu nem sei
que te dar
se
não
os
dias
os meus dias
que te dei
abril 17, 2010
abril 15, 2010
Instrumentos de Sopro
Acontece hoje, na Biblioteca da Escola EB 2 e 3 de Azeitão, pelas 19 horas. Instrumentos de Sopro vê, assim, a luz do dia pela primeira vez, numa partilha com a comunidade escolar.
Não podemos inferir que santos da casa não fazem milagres. A obra poética de Ruy Ventura tem vindo a crescer e a revelar-se como da melhor poesia que se escreve na actualidade. É tão difícil falar dela como das memórias e dos lugares a que ela nos obriga - e ainda bem - a visitar, tão vastas são as referências a que as palavras do poeta nos reportam.
Assim se concebe a literatura, assim se concebem essas palavras colocadas no sítio certo, no exacto momento em que da sombra nasce a luz.
abril 11, 2010
No meu coração/In my heart
A um passo da realidade. Basta um click. Há quem nos considere um bando de nekos (entenda-se por bonecos) que andam uns contra os outros. Há quem faça teses de doutoramento sobre nós. Andamos na boca do mundo e no cotovelo dos invejosos. Somos reais. Temos vida. A única diferença são os pixeis/genes. A nossa alma é a mesma. Por isso trago sempre o teu coração comigo, no meu coração.
Just a steap towards reality. Just a glance.
Some people think of us as foolish avas pushing and shoving. Some people get PHDs studying our behaviour. We are real. The only difference lies between the pixels and the genes. Our soul is the same. That's why I carry your heart with me (I carry it in my heart).*
* refernce to e.e.cummings
Tuka
O Tuka vai abrindo caminho e tentando marcar terreno. As suas investidas são cada vez maiores.
Sempre alerta, como bom felino que se preza. O mais rebelde de todos. O único que consegue que as minhas botas, de manhã, tenham voado do meu quarto para o meio da sala.
Sou uma sortuda! Tenho quatro gatos todos diferentes, com as suas personalidades próprias muito bem demarcadas.
Quem se pode sentir só?
abril 10, 2010
Sim eu sei
sim eu sei que há noites assim
e tu sabes que há noites assim.
a porta fecha-se sobre o silêncio
e só nós ouvimos o respirar
lento do futuro.somewhere in the night | teresa lobato
abril 06, 2010
Poema da Tarde Só
Hoje
ofereço-te um poema
e só tu saberás que
é
para
ti.
e só tu saberás que
é
para
ti.
rima
incerta
incerta
beijo mão carícia
o cheiro das
palavras
escritas
pousio na tarde.
abril 05, 2010
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto,
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
abril 04, 2010
abril 03, 2010
março 29, 2010
Correm serenos os dias
O meu olhar é grande. Não vejo o pormenor, vejo o todo. Dizem que é uma característica que nos vem dos tempos mais ancestrais, da nossa memória colectiva enquanto fêmeas.
Seja o que for.
Dá-me paz.
março 28, 2010
I Carry your Heart
Sou uma cinéfila de trazer por casa. Do que gosto, vasculho.
E guardo. Assim.
E guardo. Assim.
I carry your heart with me (I carry it in
my heart). I am never without it (anywhere
I go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
I fear
no fate (for you are my fate, my sweet)I want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
I carry your heart (I carry it in my heart)
my heart). I am never without it (anywhere
I go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
I fear
no fate (for you are my fate, my sweet)I want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
I carry your heart (I carry it in my heart)
março 27, 2010
Férias?
Os meus alunos acharam que a minha cara pedia descanso. Vai daí, e como a aula era a última e estava quase a terminar, avaliação feita e já na fase dos planos de férias, arriscaram. A stora é que está a precisar de férias. Sorri. Estou? Querem sugerir-me algum local?
Ai o que eu fui fazer! Foram tantas as sugestões que nem tive tempo de anotar. Cada uma mais arrojada do que a outra. Engraçado, os locais eram todos bem longe daqui. Pedi-lhes então uma alternativa mais perto. O quê? Ficar por aqui não são férias, stora!
Não seria má ideia. Enquanto a confusão da conversa ia crescendo, e eu já sem forças para argumentar o que quer que fosse, revi algumas imagens que me poderiam levar a um desses destinos tipo paraíso-para-descansar-a-cabeça.
Poderia ser aqui... ... ou aqui...
Por fim lembrei-lhes que as minhas férias não eram tão longas quanto as deles, para pena minha. E que fazer viagens tão longas seria mais cansativo do que relaxante. Mas eles não queriam saber: férias é longe!
Acabei por não lhes revelar os meus planos. Que talvez sejam mesmo por aqui...
Os outros locais continuam guardados, quem sabe, um dia...
Nota: fotos retiradas da internet sem autor identificado.
março 22, 2010
Finalmente és Primavera.
Quero escrever de-vagar
no sereno da manhã
antes que o chão desperte
e revele os passos.
Finalmente caminho para
a porta que é de vidro.
Descrevo a imagem para
mim entre o receio do
esquecimento e a alegria
(joy, sweet joy)
de um abraço solto nas
escadas.
Finalmente palavras contidas
no sussurro da noite onde
uma luz ilumina os degraus
que trouxeste.
março 21, 2010
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