Quando, uma vez, questionaram Jerónimo de Sousa sobre como lidava com o facto de apelidarem os comunistas de pessoas que comiam criancinhas ao pequeno almoço, ele sorriu e comentou que, de facto, comia, sim, de beijos os seus netos.
Um dia destes decorria uma reunião de trabalho e uma colega lia em voz alta um documento. Aí eram referidas algumas siglas, uma delas, curiosamente, designada por PCP, mas não em contexto político, como é óbvio numa reunião relativa a questões de Língua Portuguesa. A minha colega, olhava para mim e acrescentava, “Teresa, esta é para ti!”, em jeito carinhoso de me provocar, sabendo, como muita gente sabe, que sou militante do partido que, por acaso, tem a mesma sigla que ali se referia.
Uma segunda colega, desconhecendo o contexto da brincadeira, diz a certa altura, “Cruzes!”, como que querendo acrescentar qualquer coisa do tipo, vai de retro, Satanás! Claro que esta minha colega pertencia ao grupo que não sabia que eu sou militante do dito cujo partido, do que come criancinhas… Vai daí, não resisti e disparei em tom de brincadeira, para a primeira colega, “Oh, Maria, pronto, escusas de estar a lembrar a todos que sou vermelha, porque já todos sabem!”
Um breve silêncio. A atrapalhação da segunda colega. A minha satisfação.
Não, não tenho um valente historial de actividade partidária. Não me posso gabar de ter estado em tal sítio no ano de tal, em ter ido ao comício tal onde estava presente fulano de tal. Não faço parte desse grupo. Mas nasci com esta maneira de ver as coisas que me faz militar, hoje sim, no tal partido e continuar a ver as coisas da vida como via já em criança. Ao contrário de algumas pessoas, fulanos de tal, que tanto se gabaram e que agora nem são nem “tal”, nem “talvez”…
maio 16, 2010
maio 13, 2010
Di-vagando
Questiono-me:
até quando ficarão guardadas as memórias?
será que os pássaros as retêm?
e a água da fonte?
lava-as ou leva-as?
deixas-me o arco para quê?
o círculo está fechado.
vou voar.
maio 12, 2010
Haja alegria!
Recebi hoje este vídeo através de uma mensagem. Não sei a data, mas acho que esse pormenor não é relevante.
Haja alegria!... Até que o povo resolva sair à rua, como diz aquela canção...
maio 09, 2010
Gatinhos
A Pituxa andava pela minha escola como pela casa dela, que era o recreio e os miminhos de algumas pessoas que lhe davam de comer e a acarinhavam. Como boa gata da vida que se preze, arranjou namorados e ficou prenhe... Vai daí, como boas samaritanas, juntámo-nos quatro amigas e colegas de trabalho e conferenciámos sobre o seu futuro. A minha casa serviria de berçário, ou não estivesse já tão habituada a estas andanças. E assim foi. Nasceram cinco lindos gatinhos que é preciso dar a quem merece. Duas já foram, resta um macho todo preto e que ninguém quer não sei porquê, e duas gatinhas. Eles aí estão. Oferecem-se a quem provar ser digno deles.
maio 04, 2010
Dinis Mota
Estava a observar o escaparate de publicações da biblioteca da minha escola quando uma gravura me chamou a atenção. Olhei para aquele desenho na capa da Noesis e achei que já tinha visto aquele traço em algum lugar. Peguei na revista e fui à procura do ilustrador. Et voilá!... o mistério desvendou-se ao ver o nome de Dinis Mota.
Conheci o trabalho do ilustrador quando, um dia, ele visitou esta Península e me deixou um comentário. Desde esse dia temos trocado visitas e delicadezas, e eu até estou em dívida para com ele, já que prometi uma história a partir de um desenho seu e até agora...
A verdade é que entrar no espaço de Dinis Mota é uma viagem ao imaginário. Mas uma viagem serena, tranquila, que fazemos sentados num tapete voador e sobre a qual temos a impressão de não ter fim. Tal como uma never ending story...
Obrigada, Dinis, por essas ilustrações tão belas...
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maio 03, 2010
abril 29, 2010
Romance ingénuo de duas linhas paralelas
Duas linhas paralelas
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.
Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar
falar e tomar café.
Mas farta de andar sozinha
uma delas certo dia
voltou-se para a outra linha
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
«Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim...»
Diz a outra: « Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!»
Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira
puxa para si o infinito.
E com ele ali à frente
as duas a murmurar
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar
seguiram as duas juntas.
Assim nestas poucas linhas
fica uma estória banal
com linhas e entrelinhas,
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente.
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.
Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar
falar e tomar café.
Mas farta de andar sozinha
uma delas certo dia
voltou-se para a outra linha
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
«Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim...»
Diz a outra: « Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!»
Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira
puxa para si o infinito.
E com ele ali à frente
as duas a murmurar
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar
seguiram as duas juntas.
Assim nestas poucas linhas
fica uma estória banal
com linhas e entrelinhas,
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente.
José Fanha
abril 25, 2010
ERA UM POEMA
Era um poema de mãos abertas
que rompeu em uma manhã
claro dia e carros a subir as ruas
a festa na cidade nas praças de
cal branca e luminosa
no ar quente daquele dia
e era um poema
e era um dia
e eram flores sobre os rios
alguém gritou que só as águas
correm para o peito
vermelhas
como um poema aberto
em mãos abertas
oferecendo a liberdade
e era um rio era o campo era uma cidade
uma praça virada ao sol
e era este poema
nas tuas mãos escrito
abertas à manhã clara
da liberdade.
Nota: imagem composta a partir de fotografias não identificadas
abril 24, 2010
Instrumentos de sopro - Apresentação
Decorreu na Biblioteca da Escola EB 2,3 de Azeitão, no passado dia 22.
Sobre a obra a autora deste espaço disse:
A poesia de Ruy Ventura é marcada pelo compasso da enxada que lavra a terra. Um compasso binário, ritmado ao som da ondulação de uma seara, talvez seca pelo estio, mas fértil, enquanto nos ofereça os versos em forma de semente, os poemas em forma de espiga, dádiva, mas não gratuita, sofrida. (...)
Poeta da terra, poeta da ceifa, R.V. despreza o recurso a enfeites e concentra-se no essencial: eis aqui este campo que precisa ser lavrado.
Poet of the soil, poet of reaping, R.V. despises the use of ornaments and focuses on the essential issues: here is this field that needs to be plowed.
Teresa Marques, a nossa menina da Teia, também ela escritora e poeta, referiu a importância do estudo das obras na formação curricular dos alunos. Se bem que também se possa considerar o reverso. Uma obra deve ser dissecada? E serviu-se de um belíssimo texto de Rúben Alves para assegurar a sua teoria. No fundo, ler é fazer amor com as palavras. (RA) E quem somos nós para quebrar esse acto sublime esquartejando versos e palavras?
Do autor e da obra saída agora através das Edições Sempre-em-Pé fica este poema:
síntese
guardarei do teu rosto
apenas o nome:
a dor do espinho rasgando a pele
para que nela entre uma palavra
somente uma palavra
gravada na coluna
que sustentava a nossa infância.
o mel e o azeite reúnem-se
entre flores e mantas de musgo.
mesmo no interior da cidade
o pão reveste-nos de sombra
o teu nome reveste-nos de dor
nesta noite em que vigiamos
o forno do alto da mais alta torre.
pouco ficou da viagem:
o rio nutrindo-se da ponte e da figueira,
o teu nome alimentando
o sangue
que guardo neste poema.
...............................................
synthesis
from your face I will just
síntese
guardarei do teu rosto
apenas o nome:
a dor do espinho rasgando a pele
para que nela entre uma palavra
somente uma palavra
gravada na coluna
que sustentava a nossa infância.
o mel e o azeite reúnem-se
entre flores e mantas de musgo.
mesmo no interior da cidade
o pão reveste-nos de sombra
o teu nome reveste-nos de dor
nesta noite em que vigiamos
o forno do alto da mais alta torre.
pouco ficou da viagem:
o rio nutrindo-se da ponte e da figueira,
o teu nome alimentando
o sangue
que guardo neste poema.
...............................................
synthesis
from your face I will just
preserve the name:
the pain of the thorn tearing the skin
for it a word can come
just one word
printed in the column
that held our childhood.
honey and olive oil rejoin
among flowers and webs of moss.
even within the city
bread takes us from the shadow
your name brazes us from pain
in this night when we watch
the oven from the top of the tallest tower.
little remained of the trip:
the river feeding on the bridge and the fig tree,
feeding your name
the blood
I save within this poem.
(tradução de Teresa Lobato)
the pain of the thorn tearing the skin
for it a word can come
just one word
printed in the column
that held our childhood.
honey and olive oil rejoin
among flowers and webs of moss.
even within the city
bread takes us from the shadow
your name brazes us from pain
in this night when we watch
the oven from the top of the tallest tower.
little remained of the trip:
the river feeding on the bridge and the fig tree,
feeding your name
the blood
I save within this poem.
(tradução de Teresa Lobato)
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abril 21, 2010
Poema Lamechas
dei-te os dias
dei-te os meus dias
todos - não contei os dias
pelos dedos da manhã
dei-te o sol dos meus dias
que enchia as paredes
do teu quarto
do nevoeiro sobre nós
e uma gota de chuva
a despertar no negrume
da manhã.
da manhã.
apaga a luz
quero ver a cor dos dias
dos dias que te dei
tantos
tantos e eu nem sei
que te dar
se
não
os
dias
os meus dias
que te dei
abril 17, 2010
abril 15, 2010
Instrumentos de Sopro
Acontece hoje, na Biblioteca da Escola EB 2 e 3 de Azeitão, pelas 19 horas. Instrumentos de Sopro vê, assim, a luz do dia pela primeira vez, numa partilha com a comunidade escolar.
Não podemos inferir que santos da casa não fazem milagres. A obra poética de Ruy Ventura tem vindo a crescer e a revelar-se como da melhor poesia que se escreve na actualidade. É tão difícil falar dela como das memórias e dos lugares a que ela nos obriga - e ainda bem - a visitar, tão vastas são as referências a que as palavras do poeta nos reportam.
Assim se concebe a literatura, assim se concebem essas palavras colocadas no sítio certo, no exacto momento em que da sombra nasce a luz.
abril 11, 2010
No meu coração/In my heart
A um passo da realidade. Basta um click. Há quem nos considere um bando de nekos (entenda-se por bonecos) que andam uns contra os outros. Há quem faça teses de doutoramento sobre nós. Andamos na boca do mundo e no cotovelo dos invejosos. Somos reais. Temos vida. A única diferença são os pixeis/genes. A nossa alma é a mesma. Por isso trago sempre o teu coração comigo, no meu coração.
Just a steap towards reality. Just a glance.
Some people think of us as foolish avas pushing and shoving. Some people get PHDs studying our behaviour. We are real. The only difference lies between the pixels and the genes. Our soul is the same. That's why I carry your heart with me (I carry it in my heart).*
* refernce to e.e.cummings
Tuka
O Tuka vai abrindo caminho e tentando marcar terreno. As suas investidas são cada vez maiores.
Sempre alerta, como bom felino que se preza. O mais rebelde de todos. O único que consegue que as minhas botas, de manhã, tenham voado do meu quarto para o meio da sala.
Sou uma sortuda! Tenho quatro gatos todos diferentes, com as suas personalidades próprias muito bem demarcadas.
Quem se pode sentir só?
abril 10, 2010
Sim eu sei
sim eu sei que há noites assim
e tu sabes que há noites assim.
a porta fecha-se sobre o silêncio
e só nós ouvimos o respirar
lento do futuro.somewhere in the night | teresa lobato
abril 06, 2010
Poema da Tarde Só
Hoje
ofereço-te um poema
e só tu saberás que
é
para
ti.
e só tu saberás que
é
para
ti.
rima
incerta
incerta
beijo mão carícia
o cheiro das
palavras
escritas
pousio na tarde.
abril 05, 2010
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto,
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
abril 04, 2010
abril 03, 2010
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