maio 16, 2010

O partido tal

Quando, uma vez, questionaram Jerónimo de Sousa sobre como lidava com o facto de apelidarem os comunistas de pessoas que comiam criancinhas ao pequeno almoço, ele sorriu e comentou que, de facto, comia, sim, de beijos os seus netos.

Um dia destes decorria uma reunião de trabalho e uma colega lia em voz alta um documento. Aí eram referidas algumas siglas, uma delas, curiosamente, designada por PCP, mas não em contexto político, como é óbvio numa reunião relativa a questões de Língua Portuguesa. A minha colega, olhava para mim e acrescentava, “Teresa, esta é para ti!”, em jeito carinhoso de me provocar, sabendo, como muita gente sabe, que sou militante do partido que, por acaso, tem a mesma sigla que ali se referia.

Uma segunda colega, desconhecendo o contexto da brincadeira, diz a certa altura, “Cruzes!”, como que querendo acrescentar qualquer coisa do tipo, vai de retro, Satanás! Claro que esta minha colega pertencia ao grupo que não sabia que eu sou militante do dito cujo partido, do que come criancinhas… Vai daí, não resisti e disparei em tom de brincadeira, para a primeira colega, “Oh, Maria, pronto, escusas de estar a lembrar a todos que sou vermelha, porque já todos sabem!”
Um breve silêncio. A atrapalhação da segunda colega. A minha satisfação.

Não, não tenho um valente historial de actividade partidária. Não me posso gabar de ter estado em tal sítio no ano de tal, em ter ido ao comício tal onde estava presente fulano de tal. Não faço parte desse grupo. Mas nasci com esta maneira de ver as coisas que me faz militar, hoje sim, no tal partido e continuar a ver as coisas da vida como via já em criança. Ao contrário de algumas pessoas, fulanos de tal, que tanto se gabaram e que agora nem são nem “tal”, nem “talvez”…

3 comentários:

Manuel Cardoso disse...

Bravo, Teresa!
Há uma citação de André Gide que creio exprimir bem essa tua convicção: "O mundo só poderá ser salvo, caso o possa ser, pelos insubmissos".
Por detestar esse tipo de preconceitos e por algumas centenas de outras razões é que me inscrevi recentemente no BE. Depois disso tenho sentido um certo orgulho quando alguns colegas fazem essa cara de cruzes canhoto, na altura em que lhes revelo, com grande gozo, a minha filiação partidária :)

Teresa Lobato disse...

Obrigada pela força, Cardoso.
E venham mais cinco! :)

Abraço

Carlos Albuquerque disse...

Interessante acaso que me fez aqui chegar e encontrar (nos seguidores) amigos comuns.
Não tenho filiação partidária, mas o meu voto está, de há muito, cativo. Nasci de Esquerda e como tal morrerei.
Estamos cheios dos que agora, como diz,não são nem "tal" nem "talvez".É o que mais há por aí...mas um dia isto muda!
Gostei do blog. Voltarei.
Abraço